Casos de uso

Caso: uma agência brasileira recebe em USDC dos EUA

Uma fatura de retainer mensal, duas formas de recebê-la e um mesmo saldo que depois paga os freelancers.

Erika Sandoval
Erika Sandoval11 min de leitura
Compartilhar
Casos de uso

Uma agência de design e conteúdo digital em São Paulo fecha um contrato de retainer mensal com uma fintech em Miami. O acordo é assinado em uma videochamada e parece resolvido, mas a primeira fatura leva quatro dias úteis para virar dinheiro disponível, e chega com uma tarifa que ninguém tinha cotado antes. Essa defasagem entre o trabalho entregue e o caixa disponível é, para uma agência de serviços, o problema financeiro mais recorrente do negócio.

Na Soulbit Academy apresentamos este caso como um exemplo ilustrativo e composto, não como um cliente real. Os nomes são fictícios e os valores são suposições razoáveis, coerentes com custos e prazos habituais do recebimento internacional de serviços. O objetivo é mostrar o que muda quando essa mesma fatura é recebida com um payment link em USDC, e o que acontece com o saldo depois: neste caso, esse saldo também paga a folha de freelancers da agência.

O caso: uma agência brasileira que recebe em USDC de um cliente nos Estados Unidos (perfil ilustrativo)

Chamemos a empresa de "Estúdio Aurora", com sede em São Paulo e 16 pessoas na equipe. Fatura cerca de 1,3 milhão de dólares por ano, 60% de clientes nos Estados Unidos e o restante entre Brasil e outros países da região. A área financeira é conduzida por uma gerente administrativa com um assistente contábil, que gerenciam cerca de 35 faturas por mês, das quais 20 são internacionais.

O cliente deste caso é uma fintech em Miami, na Flórida, que contrata o Estúdio Aurora sob um retainer mensal de USD 20.000 para design de produto e conteúdo, além de projetos pontuais faturados à parte. Nenhuma das duas pessoas da área financeira já tinha recebido em stablecoins antes, e essa foi justamente a condição de entrada: qualquer mudança precisava ser explicável à auditoria contábil sem ambiguidade.

Por que uma agência de serviços sente mais pressão de recebimento do que um exportador de bens?

Porque uma agência repete o ciclo de recebimento todo mês, com valores medianos e vários clientes em paralelo, enquanto um exportador de bens negocia poucos embarques grandes e consegue absorver uma fricção pontual. O que em uma operação isolada é um incômodo, em 20 faturas internacionais por mês vira quase um cargo dedicado só a cobrar pagamentos atrasados.

O problema: receber de um cliente dos Estados Unidos sendo uma empresa brasileira

Antes deste caso, o Estúdio Aurora recebia todos os seus retainers internacionais por transferência bancária. O cliente de Miami ordenava o pagamento ao próprio banco, que o encaminhava por um ou mais bancos correspondentes até chegar à conta da agência no Brasil. Cada correspondente podia descontar uma tarifa própria, de forma que a agência só sabia o valor exato recebido ao ver o depósito, entre três e cinco dias úteis depois de o pagamento ter sido enviado.

Antes da primeira fatura, o setor de contas a pagar do cliente pediu o formulário W-8BEN-E, com o qual uma entidade estrangeira certifica ao IRS sua condição de beneficiária efetiva do rendimento. Esse trâmite, e o restante da documentação que um cliente americano costuma pedir, está explicado passo a passo em receber de clientes nos Estados Unidos: guia completo em USDC. Este caso aplica esse procedimento a uma fatura real de retainer, sem repeti-lo do zero.

O custo médio de um pagamento transfronteiriço pelo canal bancário chega a cerca de 15% do valor, segundo a série Remittance Prices Worldwide do Banco Mundial. É um dado de remessas, não de faturas de serviços B2B, mas dá a ordem de grandeza de por que as tarifas bancárias raramente são desprezíveis em um retainer recorrente.

A partir do segundo mês, o cliente de Miami aceitou pagar o retainer com um payment link denominado em USDC, com o número da fatura incluído na referência. O cliente paga a partir do próprio saldo, a operação é confirmada em minutos e a taxa de rede é conhecida antes de aceitar o pagamento, não depois de ver o depósito.

Item (caso ilustrativo)Transferência bancáriaPayment link em USDC
Valor do retainer mensalUSD 20.000USD 20.000
Prazo até o dinheiro estar disponívelDe três a cinco dias úteisMinutos a partir do pagamento do cliente
Descontos conhecidos antes de receberNão, aparecem só no depósitoSim, a taxa de rede é conhecida antes
Bancos correspondentes envolvidosUm ou mais, conforme a rota do pagamentoNenhum
Identificador do pagamentoReferência bancária, às vezes incompletaIdentificador on-chain único e verificável
Requisito para o clienteConta habilitada para remessas internacionaisSaldo em USDC e carteira compatível
Tabela 1. Comparação ilustrativa de receber o retainer mensal de USD 20.000 por transferência bancária ou com payment link em USDC.

O que é exatamente esse instrumento de recebimento, e como ele é gerado para uma fatura recorrente, está explicado em o que é um link de pagamento e como funciona o recebimento internacional. O cliente não mudou de moeda, só de canal: continuou pagando em dólares, agora sem a cadeia de bancos correspondentes no meio.

Fechando o círculo: o mesmo saldo em USDC paga os freelancers da agência

Do saldo em USDC que recebe do retainer, o Estúdio Aurora paga diretamente oito freelancers no Brasil, na Colômbia e no México, sem converter para reais no meio: designers, um redator e um desenvolvedor de produto. Antes, o retainer recebido em reais era convertido e depois enviado de novo ao exterior para pagar os freelancers fora do Brasil, com uma tarifa e um atraso em cada etapa.

O saldo em USDC precisa virar reais assim que chega?

Não necessariamente. Dos USD 20.000 do retainer, o Estúdio Aurora destina cerca de USD 8.500 por mês à folha dos oito freelancers, paga a partir do mesmo saldo em USDC que acabou de receber, sem conversão intermediária para os que estão fora do Brasil. O restante é convertido para reais para folha interna, aluguel e impostos locais, passando pelo contrato de câmbio de sempre.

Este caso cobre o lado do recebimento. O outro lado, como uma agência estrutura o pagamento de freelancers em USDC e o que economiza em tarifas e tempo, está desenvolvido com detalhe em como uma agência paga freelancers em USDC. Os dois casos descrevem a mesma lógica de tesouraria a partir de pontas diferentes do mesmo saldo.

Câmbio, IOF e a conversão final para reais

Receber em USDC não tira o Estúdio Aurora do sistema de câmbio brasileiro. Quando a agência decide converter parte do saldo para reais, a operação passa por um contrato de câmbio com uma instituição autorizada pelo Banco Central, exatamente como exige a Lei 14.286/2021, e não diretamente com o cliente ou com um terceiro fora desse sistema.

Sobre essa conversão incide o IOF, regulado pelo Decreto nº 6.306, de 2007, alterado pelo Decreto nº 12.499, de 2025. As alíquotas típicas variam por finalidade, de 1,10% para transferência com finalidade de investimento a 3,5% para espécie, cartão internacional e disponibilidade no exterior; operações comerciais de exportação de serviços seguem alíquota própria dentro do mesmo decreto, a confirmar com a instituição escolhida. O detalhe completo dessas alíquotas e do contrato de câmbio está em câmbio para empresas no Brasil: como funciona.

O saldo em USDC não substitui esse contrato nem dispensa o IOF: muda a etapa internacional do recebimento, não a liquidação final em reais dentro do Brasil. É por isso que o Estúdio Aurora mantém em dólares digitais só a parte destinada a freelancers e fornecedores no exterior, e converte para reais apenas o que precisa localmente.

O que a V1 da Soulbit não resolve nesse caso

O Estúdio Aurora chegou à V1 da Soulbit com seis expectativas concretas. O resultado real cumpre algumas e descarta outras, como mostra a Tabela 2.

Expectativa inicialResultado real na V1Como a agência lida com isso
Eliminar o contrato de câmbio e o IOF ao converter para reaisO contrato de câmbio e o IOF continuam se aplicandoConverte por uma instituição autorizada e confirma a alíquota antes
Receber em euros com trilho bancário localO trilho bancário local só existe na ColômbiaPara EUR usa cotação OTC sob demanda
Obter rendimento sobre o saldo em dólaresNão existe na V1Mantém o saldo como tesouraria operacional, sem remuneração
Que todos os clientes paguem em USDCSó pagam assim os que já operam com stablecoinsMantém a transferência bancária como opção vigente
Operar tudo por um aplicativo nativoNão há aplicativo nativo publicado na V1Opera pela plataforma web
Que a Soulbit fixe uma tarifa fechada de recebimentoNão existe tabela pública de tarifas da plataformaCompara caso a caso frente ao custo bancário conhecido
Tabela 2. Expectativas iniciais da agência do caso frente ao resultado real na V1, incluindo o que ela não cobre.

O que outra agência brasileira pode aproveitar deste caso

Três ideias deste caso se aplicam a qualquer agência com clientes nos Estados Unidos: o contrato de câmbio e o IOF não desaparecem com o meio de recebimento, fechar o círculo entre receber e pagar no mesmo saldo é onde está o ganho real de tesouraria, e deixar que cada cliente escolha seu canal evita perder uma conta.

A primeira é que o contrato de câmbio e o IOF não desaparecem com o meio de recebimento. Converter USDC para reais no Brasil segue passando por uma instituição autorizada e pelo mesmo imposto que incidiria em qualquer operação de câmbio equivalente, como detalha o guia de câmbio para empresas no Brasil.

A segunda é que fechar o círculo entre receber e pagar no mesmo saldo, sem converter para reais no meio, é onde está o ganho real de tesouraria para uma agência com freelancers no exterior, mais do que na velocidade do recebimento em si.

A terceira é que a migração continua sendo parcial. Deixar que cada cliente escolha seu canal, sem condicionar o contrato, evita perder uma conta por uma preferência de tesouraria. Outras agências que avaliam essa mudança podem conferir o enfoque completo para o setor em soluções da Soulbit para agências.

Para ver um caso de uso relacionado, consulte Software house colombiana: como fatura e paga a folha.

Perguntas frequentes

Este caso corresponde a um cliente real da Soulbit?

Não. É um caso ilustrativo e composto, construído com custos e prazos habituais do recebimento internacional de serviços. A agência, o cliente e os valores exatos não existem. Serve para mostrar a ordem de grandeza de cada etapa do recebimento, não um resultado garantido.

Que documentos um cliente dos Estados Unidos pede antes de pagar em USDC?

Quase sempre o formulário W-8BEN-E, com o qual a agência certifica ao IRS sua condição de beneficiária efetiva do rendimento. O procedimento completo, com o restante da documentação habitual, está no guia de recebimento de clientes dos Estados Unidos.

O saldo em USDC recebido serve diretamente para pagar os freelancers da agência?

Sim, quando os valores e os prazos coincidem. A agência pode pagar um freelancer na Colômbia ou no México a partir do mesmo saldo que acabou de receber do cliente americano, sem conversão para reais no meio. O outro lado desse circuito, o pagamento a freelancers, está detalhado no caso de uma agência que paga freelancers em USDC.

Receber em USDC dispensa o contrato de câmbio e o IOF no Brasil?

Não. Ao converter o saldo para reais, a operação passa pelo mesmo contrato de câmbio com uma instituição autorizada pelo Banco Central e pelo mesmo IOF que incidiria sobre qualquer operação de câmbio equivalente. O detalhe de alíquotas e obrigações está no guia de câmbio para empresas no Brasil.

O que acontece se o cliente americano não puder pagar em USDC?

Continua pagando por transferência bancária e o restante do contrato não muda. A agência do caso não condiciona o retainer ao meio de pagamento: deixa que cada cliente escolha, porque forçar o canal arrisca a relação comercial mais do que economiza em custo de recebimento.

Sua empresa quer incorporar stablecoins à operação?

Entre na lista de espera da Soulbit e comece a pagar folha, cobrar e gerir tesouraria sem passar pelo SWIFT.

Entre na lista de espera

Artigos relacionados

Casos de uso

Caso: uma startup SaaS recebe em USDC de clientes em 12 países

Doze países, doze formas de receber e um fechamento mensal que consumia uma semana inteira. Este caso ilustrativo mostra o que muda quando cada fatura viaja com o seu próprio link de cobrança e toda a receita cai em um único saldo em dólares digitais.

10 min de leitura
Caso: uma startup SaaS recebe em USDC de clientes em 12 países
Tesouraria

Receber de clientes nos Estados Unidos desde a América Latina: guia completo em USDC

Receber de um cliente norte-americano em USDC é um procedimento com etapas concretas: combinar o meio de pagamento, entregar os documentos que o pagador exige, emitir a fatura, compartilhar o link de cobrança e conciliar pelo identificador on-chain.

10 min de leitura
Receber de clientes nos Estados Unidos desde a América Latina: guia completo em USDC