CBDC na América Latina: panorama por banco central
Uma CBDC é dinheiro digital emitido diretamente por um banco central, diferente de uma stablecoin privada. No Brasil o Drex é o projeto mais avançado da região, mas outros bancos centrais latino-americanos e caribenhos avançam em ritmos muito diferentes, e alguns já cancelaram o próprio projeto. Veja o que cada banco central confirmou até agosto de 2026.
Quem trabalha na área financeira de uma empresa brasileira já ouviu falar do Drex, mas a pergunta que interessa de verdade raramente é feita: os vizinhos da região também estão avançando com suas próprias moedas digitais de banco central, ou o Brasil está sozinho nessa corrida? E, mais importante para quem cobra ou paga fora do país, uma CBDC muda alguma coisa nesse fluxo internacional?
Na Soulbit Academy aplicamos às CBDC a mesma disciplina que à regulação de stablecoins: um país só entra neste panorama se o seu status foi confirmado em fonte oficial, com data. Preferimos cobrir bem cinco casos verificados a listar quinze de memória. Como já detalhamos o Drex em Drex: o que é e como funciona, este artigo trata o caso brasileiro de forma breve e dedica o espaço ao resto da região: o que cada banco central confirmou, a diferença entre uma CBDC de atacado e uma de varejo, e o que nenhuma delas resolve para quem recebe ou paga fora de casa.
O Drex em uma frase, e por que ele não está sozinho na região
O Drex é o projeto de moeda digital do Banco Central do Brasil, em desenvolvimento desde 2020 e ainda sem data pública de lançamento comercial confirmada, com foco na liquidação de ativos tokenizados entre instituições financeiras, mais próximo do modelo de CBDC de atacado do que de varejo. Essa arquitetura já está detalhada no artigo dedicado; aqui vale reter apenas que o Drex não é, hoje, algo que uma empresa acesse diretamente.
O que costuma passar despercebido é que o Brasil não é o único país da região com um projeto ativo, nem o único com uma CBDC em circulação comercial. As Bahamas, no Caribe, operam uma CBDC de varejo desde 2020, cinco anos antes de qualquer piloto brasileiro chegar perto de uma etapa comparável. Comparar os dois casos mostra que "mais avançado tecnicamente" e "já em circulação comercial" são coisas diferentes.
Por que o Drex avança mais devagar do que uma CBDC de varejo já lançada?
Porque resolver um problema entre poucas instituições financeiras supervisionadas é operacionalmente mais simples do que lançar uma carteira digital para milhões de pessoas e comerciantes. Uma CBDC de atacado não precisa de suporte ao usuário final, prevenção de fraude no varejo nem adoção em massa. Uma CBDC de varejo precisa de tudo isso, o que explica por que as Bahamas, com população muito menor, conseguiram lançar comercialmente antes que o Brasil o fizesse.
O panorama verificado, país por país, até agosto de 2026
A América Latina e o Caribe não avançam como bloco. Cada banco central decide de forma independente se pesquisa, testa ou abandona uma CBDC, sem obrigação de seguir o ritmo de outro. A tabela abaixo traz apenas os casos em que encontramos uma fonte oficial que fixa data e fase.
| Banco central | Fase verificada até agosto de 2026 | Fonte |
|---|---|---|
| Banco Central das Bahamas | CBDC de varejo (Sand Dollar) em circulação contínua desde 20 de outubro de 2020 | Comunicado oficial do banco central |
| Conselho Monetário do ECCB (Caribe Oriental) | CBDC de varejo (DCash) operou desde 2021; desenvolvimento do DCash 2.0 suspenso em 13 de fevereiro de 2026 | 112ª reunião do Conselho Monetário, confirmada por imprensa regional independente |
| Banco Central do Chile | Testes de prova de conceito em ambiente controlado desde o segundo relatório oficial de março de 2024, sem decisão de emitir | Segundo relatório oficial sobre a emissão de uma moeda digital de banco central |
| Banco de la República (Colômbia) | Concluiu, em sua própria análise, que não há razões suficientes para avançar por ora | Relatório oficial sobre pertinência e riscos de uma CBDC na Colômbia |
| Banco Central do Brasil | Projeto Drex em fase de piloto, sem data de lançamento comercial confirmada | Ver desenvolvimento completo no artigo dedicado |
O caso das Bahamas é o mais fácil de verificar porque o próprio Banco Central das Bahamas publica atualizações periódicas sobre o Sand Dollar: em seu comunicado público de atualização, o banco relatava mais de 100.000 carteiras de consumidor e mais de 1.500 comerciantes cadastrados, sem descontinuação anunciada. Junto com a Jamaica, é um dos poucos casos de CBDC de varejo com lançamento comercial efetivo na região, segundo a classificação do Banco de Compensações Internacionais (BIS) em seu estudo sobre CBDC na América Latina e no Caribe.
O caso do Caribe Oriental é o oposto: prova de que um projeto pode avançar por anos e mesmo assim ser interrompido. O DCash operou em vários membros da união monetária do Caribe Oriental desde 2021, mas o Conselho Monetário do ECCB decidiu, em sua 112ª reunião, em 13 de fevereiro de 2026, suspender o desenvolvimento da próxima versão para priorizar um sistema regional de pagamentos instantâneos, segundo reportagens coincidentes de vários veículos da região. Não encontramos comunicado do próprio ECCB acessível publicamente, por isso atribuímos a data a essa cobertura de imprensa coincidente, não a um documento próprio verificado.
Chile e Colômbia são os dois casos hispano-americanos com posição oficial mais clara, e ambos sinalizam cautela. O Banco Central do Chile publicou em março de 2024 seu segundo relatório, anunciando testes de prova de conceito em ambiente controlado, deixando claro que essa decisão "não deve ser entendida como uma decisão de emitir uma CBDC". O Banco de la República da Colômbia foi além: em seu documento técnico sobre pertinência e riscos, concluiu que não há razões suficientes para avançar rumo a uma moeda digital própria.
E o México, a Argentina, o Peru e o Uruguai?
Ficam de fora da tabela porque, dentro do tempo de pesquisa deste artigo, não encontramos um documento oficial recente que fixasse com data a fase atual de cada um. O México pesquisa o tema desde 2021 e o Banxico já publicou apresentações técnicas sobre o assunto, mas o que está disponível sobre seu status em 2026 é cobertura de imprensa, não um documento próprio com data; vale acompanhar separadamente sua regulação de stablecoins, tratada em o projeto AVE de stablecoins no México. Não encontramos documento oficial com data para Argentina, Peru ou Uruguai, então preferimos deixá-los de fora a arriscar um status inventado. Para o quadro regulatório mais amplo de criptoativos na região, além das CBDC, veja o panorama regulatório de criptoativos na América Latina 2026.
O que uma CBDC não resolve para quem cobra ou paga fora do próprio país
Uma CBDC é, por definição, dinheiro doméstico: circula apenas dentro da jurisdição do banco central emissor e não substitui nenhum trilho transfronteiriço existente. Mesmo as Bahamas, o caso mais maduro da região, mantêm o Sand Dollar como instrumento para pagamentos dentro do arquipélago, não como via para receber de um cliente nos Estados Unidos ou pagar um fornecedor na Ásia.
Isso importa porque a manchete de imprensa costuma misturar duas perguntas distintas: se um país terá dinheiro digital, e se esse dinheiro digital resolve receber ou pagar através de fronteiras. São perguntas independentes. Uma empresa brasileira que exporta serviços para os Estados Unidos continuará precisando de banco correspondente, transferência SWIFT ou uma stablecoin para receber esse pagamento, tenha ou não o Drex chegado a uma etapa comercial.
Alguma coisa mudaria se mais países da região lançassem sua própria CBDC de varejo?
Mudaria a experiência de pagamento dentro de cada país, não entre países. Nem o desenho analisado pelo BIS nem nenhum projeto verificado aqui prevê interoperabilidade automática entre a CBDC de um país e a de outro; conectar duas CBDC nacionais exige acordos bilaterais que, até agosto de 2026, não estão implementados em nenhum lugar da região. O volume de pagamentos B2B transfronteiriços que já circula em stablecoins, mais de 324.000 milhões de dólares em 2025, com crescimento de 89% em relação ao ano anterior, segundo a The Digital Chamber, reflete essa lacuna: o instrumento que empresas da região já adotaram para pagar e receber através de fronteiras não é uma CBDC, mas um instrumento privado que roda em blockchains públicas acessíveis entre países, como detalhamos em a adoção de stablecoins B2B na América Latina.
CBDC contra stablecoin: quem emite, quem assume o risco, quem tem acesso
Uma CBDC e uma stablecoin resolvem necessidades diferentes porque uma autoridade diferente decide sobre cada uma e uma parte diferente assume o risco. Confundir os dois instrumentos, algo comum na cobertura de imprensa generalista, cria expectativas erradas sobre o que cada um pode oferecer a uma empresa.
| Dimensão | CBDC | Stablecoin (USDC ou USDT) |
|---|---|---|
| Quem emite | Um banco central, como passivo direto do Estado | Uma empresa privada regulada, como a Circle ou a Tether |
| Quem assume o risco de emissor | O próprio banco central do país | A empresa emissora e a qualidade das suas reservas |
| Alcance geográfico | Doméstico, dentro da jurisdição do banco central | Blockchain pública, transferível entre países |
| Acesso para uma empresa estrangeira | Normalmente restrito a residentes ou contas locais | Acessível com uma carteira e o KYC do provedor |
| Uso típico hoje em pagamentos B2B internacionais | Nenhum confirmado na região | É o seu principal caso de uso verificado |
A diferença de acesso é a mais relevante para uma empresa que lida com contrapartes em vários países. Uma stablecoin como a USDC ou a USDT chega a uma carteira assim que a verificação de um provedor regulado é concluída, independentemente do país onde a empresa esteja baseada. Nenhuma CBDC revisada aqui oferece hoje esse mesmo acesso a uma empresa não residente da sua jurisdição emissora. Revise o detalhamento completo dessa diferença em diferença entre stablecoin e criptomoeda.
O que a V1 da Soulbit entrega hoje, sem enfeites
A Soulbit não opera com nenhuma CBDC da região, nem o Drex, nem o Sand Dollar das Bahamas, nem qualquer outra mencionada neste artigo. Ela não emite, não custodia nem liquida moeda digital de banco central, e não participa de nenhum dos pilotos descritos acima.
O que a V1 entrega hoje é concreto: saldo empresarial nas stablecoins USDC e USDT, fiat em USD, EUR e GBP, trilho bancário local apenas na Colômbia, verificação KYB, folha de pagamento recorrente e em lote, links de pagamento, QR code de cobrança, conversão por cotação sob solicitação, custódia institucional e monitoramento AML e KYT. Essa combinação já resolve o problema real de receber ou pagar através de fronteiras, enquanto a maioria dos projetos de CBDC da região segue em fase de estudo.
O que ela não entrega também importa: não há cartões, nem rendimento ou APY, nem token próprio, nem aplicativo móvel nativo até que seja publicado nas lojas. Nenhuma afirmação deste artigo sobre CBDC deve ser lida como promessa sobre o produto da Soulbit.
O que uma empresa deveria vigiar hoje sobre as CBDC da região
Acompanhar uma CBDC só faz sentido quando o banco central relevante confirma, em fonte própria, uma data de lançamento comercial de varejo. Até lá, o melhor uso do tempo de um CFO é revisar a fonte oficial uma ou duas vezes por ano, não reagir a cada manchete.
Três sinais concretos merecem atenção: um banco central anunciar uma data de lançamento comercial, não apenas de piloto; publicar regras de interoperabilidade com outra jurisdição, algo que nenhum caso desta região tem hoje; e confirmar se a CBDC estará disponível para empresas não residentes, não apenas para pessoas ou entidades locais. Nenhum desses três sinais se cumpriu em nenhum país revisado neste artigo até agosto de 2026.
Perguntas frequentes
O Brasil é o único país da América Latina com um projeto de CBDC avançado?
Não. O Drex é o projeto mais desenvolvido da região em termos de infraestrutura testada, mas as Bahamas têm uma CBDC de varejo, o Sand Dollar, em circulação comercial contínua desde 2020, o que nenhum outro país da região, incluindo o Brasil, ainda alcançou. O Caribe Oriental também chegou a operar sua própria CBDC de varejo antes de suspender o desenvolvimento da próxima versão.
Uma CBDC muda alguma coisa para uma empresa brasileira que recebe ou paga fora do Brasil?
Não, em nenhum dos projetos verificados neste artigo. Uma CBDC é dinheiro doméstico, válido apenas dentro da jurisdição do banco central que a emite. Nem o Drex nem nenhum outro projeto revisado substitui um trilho transfronteiriço: continuam sendo necessários bancos correspondentes, SWIFT ou um instrumento como uma stablecoin para movimentar valor entre países.
Qual é a diferença entre uma CBDC de atacado e uma de varejo?
Uma CBDC de atacado só pode ser mantida por bancos e outras instituições financeiras autorizadas, para liquidar operações entre elas; uma empresa nunca acessa esse tipo diretamente. Uma CBDC de varejo é pensada para pessoas e empresas usarem no dia a dia, como dinheiro digital, por meio de uma conta ou carteira aberta junto ao banco central ou a um intermediário autorizado. O Drex se aproxima mais do modelo de atacado, voltado à liquidação de ativos tokenizados entre instituições.
Em que uma CBDC se diferencia de uma stablecoin como a USDC?
O emissor e quem assume o risco mudam por completo. Uma CBDC é emitida por um banco central e é seu passivo direto. Uma stablecoin como a USDC é emitida por uma empresa privada, a Circle nesse caso, respaldada por reservas auditadas, e o risco do emissor é dessa empresa, não de um Estado. A USDC também circula em blockchains públicas acessíveis entre países, algo que nenhuma CBDC oferece hoje.
A Soulbit opera com o Drex ou com alguma outra CBDC?
Não. A Soulbit não emite, custodia nem liquida nenhuma moeda digital de banco central, incluindo o Drex. Sua V1 opera com as stablecoins USDC e USDT, saldo em USD, EUR e GBP, trilho bancário local apenas na Colômbia, folha de pagamento em massa, links de pagamento, QR code de cobrança e conversão por cotação sob solicitação.
Sua empresa quer incorporar stablecoins à operação?
Entre na lista de espera da Soulbit e comece a pagar folha, cobrar e gerir tesouraria sem passar pelo SWIFT.
Entre na lista de espera