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CMV com estoque importado: como calcular o custo das mercadorias vendidas quando a compra é em dólar

O custo das mercadorias vendidas (CMV) é o estoque inicial mais as compras menos o estoque final, mas, com compra em dólar, é preciso definir o que entra no custo e a que câmbio. Este guia resolve as duas questões com um exemplo numérico rotulado como premissa.

Erika Sandoval
Erika Sandoval11 min de leitura
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Uma empresa brasileira que importa mercadoria e a vende em reais costuma descobrir no fechamento que a margem bruta se mexeu sem que nenhum preço tenha mudado. A causa quase sempre está no CMV: o que foi ativado no estoque, a que câmbio e onde parou a variação cambial.

Na Soulbit Academy explicamos o CMV do ponto de vista do CFO que compra estoque em dólar e opera na América Latina. Este artigo faz parte da série de demonstrações financeiras do Kit do CFO: parte da leitura da DRE em duas moedas e acrescenta o cálculo do custo que a alimenta.

CMV: fórmula e o que ele mede

O CMV, ou custo das mercadorias vendidas, é o custo de aquisição ou produção das unidades que a empresa vendeu no período. Calcula-se com estoque inicial mais compras líquidas menos estoque final. É a primeira dedução da DRE, e a diferença entre a receita e o CMV é o lucro bruto.

A fórmula exige duas informações consistentes: quanto custaram as unidades disponíveis e quanto vale o que ficou sem vender. O estoque inicial é o saldo do fechamento anterior. As compras líquidas são as compras do período menos devoluções e descontos comerciais. O estoque final é o saldo no fim do período, por contagem física ou por controle permanente.

Dois sistemas chegam ao mesmo resultado. No inventário periódico, a empresa conta o estoque no fechamento e obtém o CMV por diferença. No inventário permanente, cada venda baixa seu custo na hora e o saldo é sempre conhecido. O segundo exige mais disciplina e detecta perdas antes do fechamento.

Um erro no estoque final passa inteiro ao CMV: se ele estiver superavaliado em R$ 10.000, o lucro bruto fica inflado em R$ 10.000. Por isso o estoque importado exige uma regra clara sobre o que entra no custo e em que moeda é medido.

Custo de aquisição do estoque importado: o que entra

O custo de aquisição de um estoque importado inclui tudo o que é necessário para deixar a mercadoria no armazém em condição de venda. O item 11 do CPC 16 (R1) consolidado pela CVM inclui preço de compra, impostos de importação e tributos não recuperáveis, transporte, seguro, manuseio e outros custos diretamente atribuíveis, menos descontos comerciais. A IAS 2 é a norma internacional correspondente e exclui os tributos que a empresa recupera.

Para um importador, a lista vira cinco componentes. O primeiro é o preço da fatura do fornecedor. O segundo é o frete e o seguro internacionais. O terceiro é o imposto de importação pago na alfândega. O quarto é a comissão do despachante aduaneiro e outros custos de desembaraço diretamente atribuíveis. O quinto é o transporte interno até o armazém. Todos somam ao custo do estoque e não à despesa do período.

Três itens ficam de fora. O primeiro são os tributos que a empresa efetivamente pode recuperar junto ao fisco, conforme seu regime e a operação. O segundo é a armazenagem posterior à chegada, salvo se necessária para deixar o produto em condição de venda. O terceiro são as despesas de vendas e administrativas, que vão ao resultado. A Declaração de Importação lista todos os conceitos e convém conciliá-los um a um; o artigo sobre o pedimento mexicano e o pagamento ao fornecedor mostra o equivalente no México.

A Tabela 1 resume o tratamento de cada componente.

ComponenteEntra no custo do estoque?Tratamento
Preço da fatura do fornecedorSimAtivado, líquido de descontos comerciais
Frete e seguro internacionaisSimAtivados ao câmbio da data da operação
Imposto de importação não recuperávelSimAtivado quando não recuperável
Despachante e despesas de desembaraçoSimAtivados se diretamente atribuíveis à compra
Tributos recuperáveis sobre a importaçãoNãoRegistrados como tributos a recuperar
Variação cambial do pagamento ao fornecedorNãoVai ao resultado, como variação cambial
Despesas de vendas e administrativasNãoDespesa do período
Tabela 1. O que é ativado e o que não é no custo de aquisição de um estoque importado.

O critério de fundo é a recuperabilidade: se o tributo volta à empresa como crédito, não é custo. Cada regime tributário define o que é recuperável, então confirme o tratamento com seu contador.

Câmbio: que data vale para cada componente

Cada componente em dólar é convertido para a moeda funcional ao câmbio da data em que a empresa reconhece a operação. O estoque é um item não monetário mensurado ao custo; uma vez registrado, não é reconvertido com câmbios posteriores. A regra completa está no artigo sobre NIC 21 e NIF B-15, e aqui só a aplicamos ao estoque.

Na prática, a data da operação de um estoque importado é aquela em que a empresa obtém o controle da mercadoria e o risco passa a ser seu. Isso depende das condições de entrega acertadas com o fornecedor e do documento aduaneiro. Escolha um critério, documente-o e aplique-o sempre da mesma forma.

Os tributos pagos em reais na alfândega não exigem conversão. Os componentes pagos em dólar, como o frete, são convertidos ao câmbio da data de cada pagamento ou, se provisionados, ao da data de reconhecimento. Defina na política contábil qual cotação usar, por exemplo a PTAX do Banco Central. Para quem opera também na Colômbia, o artigo sobre a TRM e a DIAN explica a taxa oficial de lá.

E se a mercadoria foi pedida em um mês e recebida em outro?

Registre-a ao câmbio da data de reconhecimento definida na política, não ao da ordem de compra. Se houve adiantamento ao fornecedor, a parte adiantada normalmente mantém o câmbio da data do adiantamento. Documente as datas de pedido, adiantamento, entrega e pagamento de cada embarque.

Por que a variação cambial do pagamento não entra no CMV

A diferença cambial entre a data de reconhecimento do estoque e a data do pagamento ao fornecedor vai ao resultado e não se soma ao CMV. A conta a pagar ao fornecedor é um item monetário: é reconvertida a cada fechamento e na liquidação. O estoque permanece fixo. A NIC 21 estabelece que as diferenças de itens monetários vão ao resultado.

O CMV responde quanto custou a mercadoria no dia em que a empresa a tornou sua. A variação cambial responde quanto a empresa ganhou ou perdeu por deixar uma dívida em dólar em aberto. Misturar as duas esconde a exposição ao câmbio dentro da margem bruta.

Um exemplo com premissas mostra o efeito. A empresa registra o estoque a R$ 5,50 por dólar e paga trinta dias depois a R$ 5,70. O estoque continua custando o mesmo, e a perda de R$ 0,20 por dólar devido vai ao resultado. Se a somasse ao custo, o produto pareceria mais caro e a margem bruta menor, embora o problema fosse de tesouraria. O artigo sobre variação cambial e fechamento mensal mostra como apresentá-la.

Com o CMV limpo de variação cambial, o CFO analisa separadamente a margem comercial e o resultado financeiro. A margem de contribuição por produto e moeda depende dessa separação.

CMV com PEPS ou custo médio ponderado: exemplo com premissas

O CMV depende do critério de avaliação quando o custo unitário muda entre compras. O CPC 16 exige PEPS ou custo médio ponderado para estoques intercambiáveis e identificação específica para os não intercambiáveis. UEPS não é permitido pelo pronunciamento. A empresa deve usar o mesmo critério para estoques de natureza e uso semelhantes.

O exemplo a seguir é hipotético, usa premissas rotuladas e não representa preços nem resultados da Soulbit. Premissas: uma empresa brasileira compra 800 unidades a 25 dólares, ou 20.000 dólares. Frete e seguro somam 2.000 dólares. O imposto de importação é de R$ 22.000 e a comissão do despachante, de R$ 3.000, ambos pagos em reais. O câmbio da data da operação é R$ 5,50. Os tributos recuperáveis ficam de fora.

Custo de aquisição: 20.000 vezes 5,50 são R$ 110.000; 2.000 vezes 5,50 são R$ 11.000; mais R$ 22.000 e R$ 3.000. O total é R$ 146.000, ou R$ 182,50 por unidade. O pagamento ao fornecedor, trinta dias depois a R$ 5,70, custa R$ 114.000: a diferença de R$ 4.000 vai ao resultado, não ao estoque.

Outras premissas: o estoque inicial é de 200 unidades a R$ 180,00, ou R$ 36.000. A empresa vende 700 unidades no período e restam 300. A Tabela 2 compara os dois critérios.

Item (reais, premissas)Custo médio ponderadoPEPS
Unidades disponíveis: 200 iniciais e 800 compradas1.0001.000
Custo das unidades disponíveis182.000182.000
Custo unitário aplicado às saídas182,00 médio180,00 as primeiras 200; 182,50 as outras 500
CMV de 700 unidades127.400127.250
Estoque final de 300 unidades54.60054.750
Tabela 2. CMV e estoque final com custo médio ponderado e PEPS, caso hipotético.

Os dois critérios repartem o mesmo custo disponível de R$ 182.000; só muda a divisão. A diferença de R$ 150 é pequena porque o custo unitário variou pouco. Com câmbio mais volátil, ela cresce.

Conferência: 36.000 mais 146.000 menos 54.600 dá 127.400, o CMV pelo custo médio ponderado.

Erros frequentes no CMV com estoque em dólar

Cinco erros se repetem no cálculo do CMV de estoque importado. O primeiro é somar ao custo a variação cambial do pagamento ao fornecedor. O segundo é esquecer o frete, o seguro ou o despachante por estarem em notas diferentes. O terceiro é ativar tributos recuperáveis. O quarto é reconverter o estoque todo mês ao câmbio de fechamento. O quinto é mudar o critério de avaliação sem aplicá-lo de forma consistente.

A primeira salvaguarda é uma conciliação por embarque. Cada importação precisa de um dossiê com a fatura do fornecedor, o documento aduaneiro, as notas de frete e desembaraço, o câmbio aplicado a cada componente e o comprovante de pagamento.

Como a alta do dólar aparece na margem?

Um câmbio mais alto encarece os novos embarques. Com PEPS, o efeito chega ao CMV com defasagem, quando a mercadoria antiga se esgota. Com custo médio, ele se dilui no custo médio. Em ambos os casos, o preço de venda deve ser revisto pelo custo de reposição, não só pelo custo contábil do estoque.

A segunda salvaguarda é separar o relatório mensal em CMV, variação cambial realizada e variação cambial não realizada das contas a pagar.

O que o V1 da Soulbit entrega e o que não entrega

A Soulbit não calcula o CMV nem avalia estoques. É uma plataforma de custódia institucional com MPC, conversão OTC por cotação e pagamentos, não um sistema contábil. O V1 inclui saldos em USDC e USDT, fiat em dólares, euros e libras, pagamentos recorrentes e em lote, payment links, QR de cobrança, KYB, monitoramento AML/KYT e suporte humano.

O rail bancário local do V1 existe apenas na Colômbia. Para uma empresa brasileira, a plataforma não oferece rail local em reais. A contabilização dos estoques, o câmbio de cada componente, a Declaração de Importação, o despachante e o cálculo do custo continuam sob responsabilidade da empresa e de seu contador.

Onde a Soulbit pode ajudar é depois da decisão de pagamento. A empresa pode manter saldo em stablecoins, convertê-lo por cotação OTC e guardar um registro de datas e valores que ajuda a documentar o câmbio de cada pagamento.

Perguntas frequentes

Qual é a fórmula do CMV?

O CMV é igual ao estoque inicial mais as compras líquidas do período menos o estoque final. É a fórmula do inventário periódico e depende de contagem física no fechamento. No inventário permanente, o custo é baixado a cada venda pelo critério escolhido e o total do período deve coincidir.

O que entra no custo de um estoque importado?

Entram o preço de compra, o imposto de importação e outros tributos que a empresa não recupera, o frete, o seguro, o manuseio e os custos diretamente atribuíveis à aquisição, como a comissão do despachante aduaneiro. Descontos comerciais são deduzidos. Os tributos recuperáveis não compõem o custo do estoque.

A variação cambial do pagamento ao fornecedor entra no CMV?

Não. O estoque é registrado ao câmbio da data da operação e não é ajustado depois. A diferença entre esse câmbio e o da data do pagamento ao fornecedor vai ao resultado, como variação cambial. Assim a margem bruta mede a operação comercial e não a exposição ao câmbio.

Uma empresa pode usar UEPS para avaliar o estoque?

Não pelas normas contábeis. O CPC 16 admite identificação específica, PEPS e custo médio ponderado, e o UEPS não é um critério previsto. Confirme com seu contador se alguma regra tributária exige tratamento diferente para fins fiscais, porque o custo contábil e o fiscal podem divergir.

A Soulbit calcula o CMV ou avalia o estoque?

Não. A Soulbit é uma plataforma de custódia, conversão OTC e pagamentos: não faz contabilidade, não avalia estoques nem calcula o CMV. Seu papel começa quando a empresa já decidiu quanto pagar e precisa movimentar saldo em stablecoins ou dispersar pagamentos em pesos colombianos.

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